Começo com uma confissão: eu estava de saco cheio escrevendo um e-mail.
“Boa noite, espero que esteja bem. Gostaria de solicitar, quando lhe for possível, por gentileza, assinar o documento no local indicado, é importante para que eu possa o encaminhar amanhã. Obrigada e fico no aguardo do retorno.”
No fundo do meu cansaço de 22h, eu só queria enviar o doc com e-mail em branco e receber de volta assinado. Sem mais.
E então, em minha revolta amarga, lembrei da faculdade de antropologia onde o professor casualmente nos explicou, antes da aula, sobre a origem do “obrigado”.
Ob: para, em direção à.
Ligare: ligar, atar, prender.
Obligare: ligar alguém a algo, criar um vínculo compulsório.
Obligatus: aquele que está ligado, comprometido, em dívida.
Quando alguém dizia “sou obrigado”, o sentido original era literal: “estou vinculado a você por um dever”.
Sou obrigado.
E, em português antigo, dizia-se: “fico-vos obrigado”.
Em um país colonizado, não preciso dizer muito para que se entenda como funciona(va).
Lembro de ficar pensando nisso, e embora eu acreditasse no professor, era uma informação rápida, sem fontes, não o tema da aula, então realizei minhas pesquisas e entendi mais sobre esse sistema, foi uma espécie de “arqueologia linguística” (o verdadeiro tema da aula era laboratório de arqueologia).
Mas não é só o “obrigado” o importante da história Costume Local. Para o fim, certamente veio a ideia da resposta “de nada”, porém, na mesma aula, o professor contou sobre como foi para ele, recém chegado na minha cidade natal, ir à padaria e ouvir pela primeira vez a atendente responder: “merece”.
Ele ficou um tempo pensando “mereço… o quê?”
Eu já passei por essa situação várias vezes, mas pelo outro lado. Se tem algo da minha cidade que sempre carrego comigo é o costume (local) de responder “merece”, as vezes é automático, as vezes é atenta para a reação da outra pessoa que não conhece.
Você… merece.
E quanto mais eu pensava, mais me convencia que o “merece” era a resposta perfeita.
Perfeita, mas não necessária.
Não obrigatória.
Como deve ser.
“There’s always been a lottery.”
— Shirley Jackson