Costume Local

Conto

Há coisas tão antigas que ninguém lembra quando começaram… mas todos percebem quando alguém quebra.

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Caleb foi avisado do costume local assim que chegou na cidade.

– Nunca, jamais agradeça – seu irmão o alertou.

– Como assim? O que eu faço?

– Assim… – Renato balançou a cabeça como se cumprimentasse alguém. – Só nunca diga “obrigado”.

– Por quê?

Dessa vez, Renato apenas deu de ombros. Não sabia, mas aprendera a conviver com a regra desde que se mudara para morar na cidade natal da esposa.

Aquela não foi a primeira, ou única, coisa estranha que Caleb notou.

As pessoas eram mais quietas do que o normal, lançavam olhares de esgueira com lábios franzidos. Embora fosse uma cidade pequena, elas não se cumprimentavam com mais do que um aceno, e eventualmente alguém muito conhecido murmurava um “bom dia” de má vontade. Eram pessoas mal-educadas, Caleb pensou. Talvez houvesse algum desentendimento do passado; talvez fosse o clima hostil. Mesmo estando no sul, havia um calor desagradável, pesado, e mesmo assim nenhum lugar tinha ar-condicionado.

Foi por acidente que a palavra escapou de Caleb. Não quis ofender, só… aconteceu.

Estava na padaria, um dos únicos lugares em que havia conseguido conversar com alguém. O atendente, Augusto, era um homem mais velho que, naquela manhã, entregou junto do café com torrada um doce de goiabada.

– Esse eu não pedi.

– Por conta da casa – ele resmungou daquele jeito de quem não quer falar, retorcendo os lábios e olhando para o lado.

– Ah… – soprou, pego de surpresa. – Obrigado.

Poderia ser a culpa, mas Caleb diria que o local inteiro caiu em silêncio de forma repentina. Todos os olhares voltados para si, como o único estranho ofendendo o local.

Sentiu o calor subir, as mãos tremendo, mas não sabia como consertar.

O que vinha depois de um agradecimento não-quisto?

– Quero dizer…

Porém, Caleb não pode concluir. O homem se afastou simplesmente, mas não levou embora o estranhamento.

Comeu em silêncio, o coração aos pulos. Tentou sair desapercebido, passos acelerados, mas cabeça erguida, quando foi interrompido:

– Ei!

Virou-se para o senhor Augusto. O homem se encontrava com a expressão séria, tensa, parado ao lado do balcão com louças sujas em mãos.

Por um instante, Caleb pensou que ouviria uma torrente de ofensas contra o “estrangeiro desrespeitoso” que havia se tornado.

– Tu não me ajuda a trazer os engradados para reabastecer os refrigeradores?

Caleb piscou, confuso.

– Claro.

Seguiu até o depósito, pegou os engradados e levou aos refrigeradores.

– As garrafas maiores são embaixo e as menores para cima – Seu Augusto explicou.

Caleb prontamente colocou-as no lugar. Por fim, Seu Augusto esboçou um sorriso mínimo, apenas uma expressão um pouco menos carregada.

– Tu me traz esses pratos aí?

Caleb juntou os pratos sujos de todas as mesas vazias. No caminho, quase colidiu com o braço de uma mulher que havia estendido na sua direção. Ela oferecia um prato sujo. Olhou-a com raiva, quase ofendido, mas a mulher nem retribuiu, distraída na conversa com o marido.

Caleb juntou o prato. Levou todos para a cozinha. Recebeu as instruções de colocar os restos no lixo antes de lavar. Caleb seguiu as instruções, mas já estava bastante incomodado.

Por fim, estava saindo quando foi chamado mais uma vez.

– Leva isso pro meu filho. Aqui o endereço.

Seu Augusto entregou um envelope com dinheiro e um endereço. Caleb pensou em negar, mas reconsiderou ao perceber o gesto de confiança, além disso, seria a oportunidade para sair do lugar, então concordou. Levou o envelope até o endereço. Era uma casa de campo bonita, estilo arquitetônico colonial, mas muito bem conservada, cercada por plantações de arroz.

Bateu na porta e foi recebido por um homem com cerca de 30 anos. Este o olhou assustado, sem reconhecer.

– Quem é você?

– Caleb – respondeu. – Seu Augusto pediu para eu trazer algo para o filho. Pode chamar o João?

O homem acenou em positivo, murmurando o “sim” para dentro e saiu.

Logo em seguida, um outro homem apareceu. Este era mais jovem, com os punhos remangados e um chapéu de quem estivera na rua. Ele fitou Caleb com desconfiança, mas esboçou um sorriso ao receber o envelope.

– Entra aí. Tem café recém passado na cozinha.

Caleb não conseguiu sequer abrir a boca. O homem não deu tempo, deixando para Caleb segui-lo até os fundos.

Aceitou uma xícara por educação. O local era bem-iluminado, com janelas grandes que davam para a plantação. João contou que estavam no período de colheita, o mais agitado. Lá fora, era possível ver as máquinas e os trabalhadores incansáveis. Caleb deixou João contar sobre como era o trabalho, como havia certas coisas que só a habilidade manual humana era capaz.

Caleb não conseguia uma brecha para interromper. Acabou lavando a própria xícara por educação, e como o filho ainda falava, lavou o pouco mais que havia na pia.

Por fim, Caleb tomou coragem para interromper:

– Se não se importa, eu preciso ir…

– Ah, não! – João intercedeu. – Fica. Ajuda na plantação.

Caleb demorou um tempo para entender, segundos confusos, onde o sol brilhava, quase o cegando.

– O quê?

– João olhou pela janela.

– Tem muito trabalho ainda. Podes começar cortando, procura o Samuel e ele te dá uma foice.

Caleb o encarou, incrédulo.

– Eu… – começou a dizer, mas algo pesou: na cabeça; no peito. Sentiu como se o coração apertasse e a boca ficasse seca, grudenta. Respirou fundo, porém, o ato trazia mais desconforto, fazia apertar. O estômago se retorcia, enjoado por mais do que só café.

João o encarou pacientemente, pela primeira vez em silêncio.

– Vais ajudar na colheita do arroz, não é?

Caleb piscou. Tentou abrir a boca, porém, a língua pesava. Sua resposta acabou sendo um movimento de cabeça, e em pensamento sabia que queria dizer “não”, mas o movimento que fez foi de sim.

João voltou a sorrir e o empurrar porta afora.

Desnorteado, Caleb recebeu a foice e trabalhou. Trabalhou por horas, tentando montar as peças de algo, porém, sentia como se estivesse se agarrando ao pensamento consciente como quando adormecia. Os pensamentos o fugiam e outra coisa tomava conta. As mãos trabalhavam, enchendo-se de calos. As canelas já colecionavam machucados. Estava com fome, mas havia muito o que fazer.

Caleb não entendia, mas sentia. Estava trêmulo, exausto, mas seguia. Chegou até o fim e, quando viu o arroio passando adiante, só pensava na sede.

Ajoelhou-se e bebeu em desespero. Em um dos mergulhos das mãos percebeu o rastro vermelho das feridas abertas. Olhou-o, e então outra coisa chamou sua atenção.

O reflexo.

Seu reflexo.

Mas não era seu. As roupas não eram suas, eram antigas. E o dia ao seu redor não era o mesmo dia; a correnteza levava para longe os detalhes, trazendo reflexos imprecisos, mas estranhamente lúcidos.

Ali, no reflexo, via que o tempo nunca havia passado.

Sentiu o aperto no peito, como se o ontem o puxasse de volta. Levantou-se, cambaleante, seguindo o curso da água. Estava tão exausto e febril pelo sol que caía e levantava e seguia.

Sentiu aquele mal-estar novamente, piorando a cada passo que o afastava do dever na plantação.

Tudo começou a escurecer.

Ouviu barulho. Sabia que estava sendo seguido, assim como sabia que voltaria.

Sempre voltaria.

E então caiu pela última vez.

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Caleb despertou no escuro. Estava em uma cama e, ao lado, havia apenas uma vela. Estranhou. Quis acender a luz do quarto, mas logo ouviu barulho e se encolheu no canto. Quando ninguém apareceu, espiou pela janela e viu uma mulher escura como a noite com um vestido igualmente escuro, uma enxada em mãos, abrindo buracos e jogando sementes em uma pequena horta.

Sentiu o coração saltar quando ela olhou na direção da janela.

Voltou a se esconder a aguardou, olhos fixos na porta, porém, a mulher não veio atrás. Espiou novamente pela janela e tomou um susto quando a viu parada, encarando de volta.

Em dúvida, Caleb abriu a janela. Sentiu a brisa fria, o cheiro de terra. A mulher, com o cabelo preso em um lenço, o encarou com a mesma seriedade que todos daquela cidade.

De imediato quis agradecer, mas se refreou.

– Quem é você? – perguntou.

Ela torceu os lábios um pouco mais, cenho franzido, incomodada.

– Tem comida no fogão – foi tudo o que disse, ajeitou o cabelo e voltou ao trabalho.

Caleb sentia-se desnorteado. Foi atrás da comida e devorou o arroz, feijão e couve, jurando ser o mais delicioso que já havia provado.

Quando ouviu batidas brutas na porta imediatamente correu para baixo da mesa.

– Que quer? – a voz da mulher de mais cedo gritou, aproximando-se pelo lado de fora.

– A senhora não viu um fujão? – um homem perguntou.

– Não – ela respondeu ríspida, seguido de um silêncio.

– Bom, se vir ele por aí…

– Isso não é problema meu.

Mesmo do outro lado da porta, no chão, Caleb podia sentir a tensão atravessar o ar.

O homem saiu resmungando algo. Instantes depois, a mulher entrou e olhou diretamente para baixo da mesa, através da escuridão.

Em silêncio, ela moveu-se pela cozinha pequena, acendendo uma segunda vela branca.

– Você precisa sair daí – ela avisou. – Precisa ir.

– E para onde eu vou? – Levantou-se.

Lentamente, em um gesto quase de pesar, ela acenou em negativo.

Caleb sentiu a decepção voltar a torcer o estômago, grudar a língua no céu da boca. Ele sabia, sim, claro.

Sabia que voltaria para a plantação. Ainda havia muito o que colher.

Respirou fundo. Olhou para a porta, lembrando do homem, e então pela janela, onde a encontrou trabalhando sozinha.

– Posso perguntar seu nome?

– Aline.

Encaram-se por um momento, e então Aline moveu-se, limpou as mãos em um pano e foi pegar uma pazinha de jardinagem dentro do armário. Ela seguiu em direção à porta.

– Aline – chamou-a antes que se fosse.

A mulher parou na soleira e virou-se.

De todo o mal-estar, só havia uma coisa que gostaria de dizer naquele momento, guiado pelo coração, e não por um gesto involuntário.

– Obrigado.

Caleb pensou que, se estava preso, melhor ser por uma gratidão verdadeira.

A expressão dela se reduziu ainda mais, franzindo o cenho e o encarando fundo nos olhos por um tempo longo demais.

Por fim, ela respondeu com uma só palavra:

– Merece.

E então virou-se, saindo.

Caleb abriu a boca, querendo dizer algo, mas então percebeu que a língua não pesava mais.

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Leia as Notas Sobre Obligare